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Mulher trans nos eSports, Olga defende Tifanny e desabafa sobre preconceito

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“Se você pegar a estrutura óssea de mulheres nórdicas e mulheres cearenses, vai ver que são diferentes. Qual delas você acha que vai jogar vôlei? Existem muitas mulheres trans que são muito menores que a Tifanny, muito mais fracas, e que por isso não jogam vôlei. Por exemplo: eu!”.

É fácil diferenciar as duas. Autora da frase acima e pouco apegada a esportes tradicionais, Olga Rodrigues não é Tifanny. A favela onde viveu por um ano e os semáforos nos quais fez malabarismo não são nenhuma Superliga. Mas esta jogadora brasileira profissional do game Counter-Strike: Global Offensive (o famoso “CS”) é peça importante da equipe New Eagles, de eSports, e tem algo em comum com a atleta de vôlei que tem sido pauta de debate no Brasil: ambas são mulheres trans em cenários competitivos femininos.

Ao UOL Esporte, Olga rebate o argumento de que ter nascido com um corpo biologicamente masculino possa ser vantagem para ela ou Tifanny diante de outras jogadoras. Para ela, muitos homens cis que passaram anos competindo apenas nos games não conseguiriam se tornar tão fortes quanto uma mulher cis com rotina de treinos físicos. No caso deles, o fato de ter pulmões maiores não os tornaria automaticamente mais resistentes. Se um homem médio fizesse tratamento hormonal na esperança de ter alguma vantagem no vôlei feminino, não se tornaria um gênio do esporte.

“Não depende só de ter desenvolvido na adolescência um corpo biológico masculino. Depende das atividades que fazem. Vamos pegar um magrelinho que ficou no computador a vida toda e uma ‘mina’ que faz polo aquático. Uma ‘mina’ forte para c… não perde um braço de ferro contra um magrelinho do ‘CS’. Quem vai ganhar? Quem vai correr mais? Ela!”, disse Olga.

Um exemplo pode ilustrar a opinião: a central Thaisa, do vôlei, é mulher cis e dificilmente perderia um teste de força física e potência se competisse com o player “S1mple”, homem cis que foi eleito melhor player de “CS” em 2018. Em comparações como esta, o tempo de treino e preparação dos dois é um fator mais decisivo do que a formação hormonal que tiveram na adolescência.

“Na prática, a Tifanny não tem vantagem sobre as outras jogadoras. Ela se cansa mais rápido. Talvez a hormonização esteja diminuindo muito a força que ela poderia ter. A regra que criam (o limite de nível de testosterona para atletas trans é de 10 nmol/L) não tinha de existir só para ela, tinha de existir para todas. Não sei como é em outros esportes. Então quer dizer que essa é a taxa hormonal para ela poder competir? Então tem de ser a mesma taxa para todas as outras”, afirmou.

Olga passou por tratamento hormonal e conhece os seus efeitos no humor e no funcionamento do organismo.

“O corpo dela (Tifanny) pode estar em desvantagem em relação a outras meninas. O hormônio feminino, em excesso, causa uma sensação constante de TPM. Você só não menstrua, mas tem bipolaridade, muda de humor. Quanto mais forte for a hormonização, mais intenso é esse sentimento”, explicou.

Olga: “Não tem como defender a pessoa transfóbica”

Se os efeitos negativos fossem só consequência da hormonização, a jogadora de “CS” considera que tudo seria mais fácil. Afinal, outra coisa que Olga já sentiu na pele é o preconceito. No ano passado, o então treinador da Vivo Keyd, Guilherme “Walck” Moreno, fez duras críticas à presença da jogadora no time feminino da Bootkamp Gaming, pelo qual ela jogou antes do New Eagles.

“Um time que não passava na fase de grupos, com uma troca de player que até hoje não foi explicada, começa a jogar finais seguidas e dar trabalho para um time que sempre foi superior. É complicado”, reclamou Guilherme no Twitter. Posteriormente, ele e o time tiveram os contratos rompidos pela Vivo.

“A gente não deve ter medo de expressar a nossa opinião em um cenário que tem que ser democrático. Ninguém é a favor dele jogar no time da Bootkamp, e estamos todos aceitando isso calados. Um player que tira o lugar de muita menina que batalha por essa chance é colocado no time só para o time ter chance de ganhar algo”, concluiu o treinador, na ocasião.

A polêmica teve impacto no emocional de Olga. “O foco não precisa nem ser voltado para ele (Guilherme “Walck” Moreno), porque foram muitas as pessoas que apoiaram o discurso dele naquele momento. Muita gente já tinha essa visão e apenas se sentiu mais à vontade para falar b… também. Se ele tivesse falado isso e todo mundo tivesse ficado quieto, teria sido de boa para mim. Com muita gente falando, fiquei mal”, comentou.

“Eram principalmente homens que estavam falando. Eu pensei: ‘C…, esse aqui é um cenário de meninas, a maioria das meninas está me apoiando, e tem um homem dando palpite’. Mas, com toda essa polêmica, eu consegui muito mais apoio do que mensagens de pessoas que queriam me derrubar. Nesse momento, eu ganhei força para continuar”, comemorou a jogadora.

“Fiquei triste por ter visto a forma como as coisas aconteceram, mas logo depois eu já vi que todo mundo estava me apoiando e eu não precisava ficar assim. A maioria das meninas do cenário me apoia, não só as do meu time. As meninas deram a cara a tapa para que eu pudesse estar com elas”, relatou.

to mto feliz em poder dizer q to de volta aos games. to com um pc emprestado até chegar o meu, mas consegui td que precisava a partir das arrecadações e doações. ta sendo incrível poder jogar de casa com fps 300 e 144hz! obrigada a td mundo q me ajudou a realizar esse sonho <3? O L G A (@olgacsgo) 10 de fevereiro de 2019

Olga: “As mulheres me respeitam mais”

De acordo com Olga, o preconceito que ela enfrenta na comunidade gamer parte principalmente de homens cis, e as mulheres tendem a aceitá-la melhor.

“Muitas vezes, acontece de uma pessoa que não é transfóbica confundir seu gênero porque não te conhece. Isso acontece também com um cara cis com voz fina, por exemplo, ou uma mulher cis com voz mais grave. O preconceito vem a partir do momento em que você explica e a pessoa não aceita. Quando eu falo, as pessoas têm de me respeitar, e muitas vezes não respeitam e continuam ‘tirando’. Se eu jogar uma ranked (um tipo de partida de “CS”) todo dia, vai acontecer todo dia”, disse Olga.

“As mulheres me respeitam mais. As meninas que conheci dentro do jogo são mais sensíveis com as palavras, sabem se expressar melhor do que os homens. Homens usam (as palavras) de qualquer jeito. Um fala bosta, e o outro dá risada. Os times masculinos em que eu estive antes da transição me respeitavam. O que acontecia era falarem b… sobre outras ‘minas’ na minha frente, e eu ficava ‘tretando’, dava muita bronca neles!”, contou.

Olga: “Não quero um ‘trampo’ que dependa de caridade”

Em um país que ainda é hostil com a comunidade LGBT, Olga não encontrou acolhimento em casa quando decidiu assumir sua identidade de gênero. Por isso, teve de se mudar em 2017 e, consequentemente, chegou a paralisar a carreira nos eSports. “Eu parei de competir porque saí da casa dos meus pais, e saí da casa dos meus pais porque comecei a tomar os hormônios”, contou.

Assim, teve de trocar uma vida de classe média por um “cortiço”, como ela própria descreve o local em que passou a morar “em um bairro bem pobre, favela mesmo”. O ambiente tinha um único cômodo que era dividido por ela e duas amigas em São Paulo. Felizmente, Olga tinha um truque na manga para sobreviver: “A gente trampava com malabares no farol para pagar tudo”.

“Não era uma coisa que eu queria fazer. Não quero um ‘trampo’ que dependa da caridade das pessoas. Toda hora tinha de ficar pedindo favor. As pessoas não veem como contribuição a um trabalho porque não veem isso como trabalho. Eu as escutava falando de dentro do carro: ‘Por que não vai arrumar um trabalho? Por que não estuda?’, ou fechando a janela sem falar comigo. Arte, para eles, não é cultura e estudo, não é trabalho”, lamentou Olga Rodrigues, que estuda Análise de Sistemas.